Gaúcho, primeiro filho de uma família de vinte irmãos, Lupicínio
Rodrigues, ainda jovem, resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro. O
emprego de Bedel garantia-lhe o sustento, mas a sua vida girava em torno
da música, das mulheres e da boemia. E era daí que extraia a matéria-prima
para as suas letras.
Lupicínio Rodrigues, inventor do termo “dor-de-cotovelo” soube expressar
como ninguém este jeito de amar tão identificado pelo brasileiro, herdado
das antigas modinhas, marcado por tantos rótulos:
“Eu
gostei tanto, tanto quando me contaram
que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar...”
O certo é que as letras de Lupicínio diziam, na medida certa, tocavam
no ponto, atingiam em cheio, furavam na veia, rasgavam o peito do nosso
povo. Seu primeiro sucesso, podemos ouvir de sua própria boca, contando
no programa “Ensaio” da TV Cultura, um caso verídico. Estava ele tendo
um caso de amor secreto com a mulher de seu melhor amigo. Não tendo
coragem de dizer a verdade diretamente, revelou em forma de música:
“Se
acaso você chegasse no meu chatô e encontrasse
aquela mulher que você gostou
será que tinha coragem de trocar nossa amizade
por ela que até já lhe abandonou!?
Eu falo porque essa dona já mora no meu barraco...”
O sucesso de suas letras era tão grande que nos anos quarenta, anúncios
nos jornais diziam: “Procura-se empregada doméstica que não cantarolem
a música nervos de aço no trabalho”. Novamente o tema traição é explorado
neste samba-canção:
“Você
sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher
e depois encontrar este amor, meu senhor, nos braços de um outro qualquer...”
Francisco Alves era o maior cantor da época e todos os compositores,
sem exceção, sonhavam com a chance de ter ao menos uma composição gravada
em sua voz. Ao tomar conhecimento da obra de Lupicínio, Francisco Alves
declarou: “Quero gravar tudo que você tiver”.
A música, porém, nunca garantiu-lhe o sustento. Com a aposentadoria,
passou a dedicar-se à SBACEM- Sociedade Brasileira de Compositores e
Escritores de Música e a um restaurante próprio, ambiente propício para
conciliar a música e a vida boêmia.
A exemplo de todos os compositores de sua geração, passou por um período
de isolamento nos anos sessenta. Sua música seria rotulada como piegas,
brega diante das novidades que surgiam como a bossa nova, a jovem guarda
e a tropicália.
Mas sua obra provou, passando na peneira do tempo, que não era sem conteúdo.
Já nos anos setenta, suas canções seriam redescobertas. Caetano Veloso
regravaria com grande sucesso, “Felicidade”:
“Felicidade
foi-se embora e a saudade no meu peito,
ainda mora e é por isso que eu gosto...”
Paulinho
da Viola faria também uma gravação primorosa de “Nervos de aço” e Simone
traria para os novos tempos o drama do eterno tema traição:
“Ela
disse-me assim, tenha pena de mim, vá embora
ele pode chegar, vais me prejudicar, está na hora...”
Na voz de Gal Costa, a ausência da amada e o pedido de volta:
“Volta,
vem viver outra vez ao meu lado
não consigo dormir sem seu braço,
pois meu corpo está acostumado...”
Com Elis Regina, “Cadeira vazia”, o perdão com sabor de vingança no
momento da volta:
“Não te darei carinho nem afeto, mas pra te abrigar podes ocupar meu
teto...”
Nos anos oitenta, Zizi Possi e nos noventa Adriana Calcanhoto se encarregaram
de resgatar outro clássico que reafirma a impossibilidade de um final
feliz para o amor:
“Nunca,
nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar,
nem mesmo assim, as pazes contigo eu farei...”
Personagem ativo de sua obra, Lupicínio morreu do coração. Coração que
continua a pulsar nas suas canções e nas de seus seguidores. Seja na
música romântica de Roberto Carlos, seja no rock de Cazuza, no sertanejo
ou no pagode, enfim, em qualquer gênero ligado ao amor fracassado, à
traição e à mágoa. Temas que Lupicinio conseguiu como poucos, levantar
sem banalizar.
Júlio
Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG