Nascido
de uma família extremamente humilde, Cartola desde muito pequeno conviveu
com as rodas de samba. Ainda adolescente começou a trabalhar. Com a
morte da mãe e os atritos com o pai acabou expulso de casa. Fixou moradia
em um barraco no morro da Mangueira onde ganhou o apelido por utilizar
um chapéu-coco para proteger a cabeça do pó de cimento quando trabalhava
como pedreiro.
Aos dezessete anos esteve à beira da morte, doente, desnutrido e abandonado.
Foi salvo por uma vizinha, que acabou apaixonando-se por ele e mudando-se
para seu barracão.
Com a mulher e a enteada, Cartola não deixou de freqüentar as rodas.
Cada vez mais envolvido com a comunidade acabou ajudando a funda a Escola
de Samba Estação Primeira de Mangueira.
“Alvorada
lá no morro, que beleza
ninguém chora, não há tristeza
ninguém sente dissabor...”
Mas a morte da mulher acabou afastando Cartola dos amigos, do samba,
da composição. Pelo menos até que viesse um novo e definitivo amor.
“Não
quero mais amar a ninguém
não fui feliz o destino não quis o meu primeiro amor
morreu como a flor ainda em botão...”
“Não quero mais amar a ninguém” foi composta com o amigo Carlos Cachaça.
E foi a cunhada deste parceiro, Dona Zica a mulher com quem Cartola
viria a se casar e viver até o fim da vida. Para ela escreveria um dos
maiores clássicos de nossa música popular, “As rosas não falam”:
“Bate
outra vez com esperanças o meu coração
pois já vai terminando o verão enfim...”
Impressiona na obra de Cartola o altíssimo nível poético de seus versos.
Ainda mais quando se leva em conta a origem humilde, a elementar formação
escolar. Os versos de Cartola são de fazer inveja a qualquer pós-graduado
em Letras.
“Preste
atenção, querida,
de cada amor tu herdarás só o cinismo
quando notares estás a beira do abismo,
abismo que cavaste com teus pés...”
O
mesmo podemos dizer da qualidade de suas melodias. Não é à toa que era
admirado até mesmo por Villa-Lobos com quem participou da gravação de
um disco ao lado ainda de Donga e Pixinguinha. Mesmo assim Cartola não
conseguiu sobreviver com a música. Caiu no quase total esquecimento.
Só na década de cinqüenta, enquanto fazia bico lavando carros que foi
reconhecido por um cartunista e sua carreira foi reativada. Arriscando
tudo na inauguração do restaurante Zicartola, as coisas começaram a
melhorar para o compositor. O momento de resgate do samba e o surgimento
de novos nomes como Paulinho da Viola e Martinho da Vila constribuíam
para o resgate de antigos valores. Até que em 1974, finalmente Cartola
gravaria o seu primeiro disco. O sucesso foi imenso e o disco faturou
todos os prêmios de melhor do ano. A partir de então, Cartola eternizou-se
como um dos grandes compositores da MPB e sua obra até hoje vem sendo
redescoberta com gravações antológicas. Como a gravação de “Acontece”
interpretada por Caetano Veloso:
“Esquece
o nosso amor, vê se esquece porque tudo na vida acontece
e acontece que o meu coração ficou frio...”
Para
encerrar uma frase do sambista Nelson Sargento sobre Cartola: “Cartola
não existiu. Foi um sonho que a gente teve”
Júlio
Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG