Os
versos de “Alegria” sintetizam a obra de Assis Valente. Uma busca incansável
da alegria de viver através do samba:
“Minha
gente era triste, amargurada
inventou a batucada pra deixar de padecer
salve o prazer, salve o prazer...”
Numa
vida atribulada de altos e baixos, iniciada na Bahia com rejeição, abandono,
discriminação, Assis Valente conseguiu, por seus próprios méritos destacar-se
no Rio de Janeiro. Seu sustento era garantido, primeiramente em um laboratório
de farmácia, depois fazendo com competência próteses em um consultório
dentário.
Não
tardaria a aparecer a sua habilidade em recitar e criar versos. A declamação
pública de versos de Guerra Junqueiro, poeta bastante censurado pela
igreja na época, custaria a perda do emprego. Mas chamaria a atenção
de Heitor dos Prazeres que sugeria que Valente escrevesse músicas. Assis
encontrou extrema facilidade em colocar versos em melodias de difícil
versificação, as mais rápidas. Não tinha o mesmo talento para compor
as melodias, muito menos para tocar ou cantar, embora também escrevesse
versos em suas próprias melodias simples, alegres, divertidas e populares.
“Beijei
na boca de quem não devia,
peguei na mão de quem não conhecia, ai
dancei um samba em trajes de maiô
e o tal do mundo não se acabou...”
Versos
como estes de “E o mundo não se acabou” casou-se como uma luva ao estilo
Carmem Miranda. Ela seria sua principal interprete, tornando o compositor
conhecido nos anos trinta.
Fato
engraçado foi o ensaio de Carmem Miranda na casa de Assis Valente para
a gravação de “Camisa listrada”. Não havendo espaço suficiente dentro
de casa, Assis levou a estrela internacional para ensaiar no galinheiro,
lugar mais espaçoso e arejado que a sua sala.
“Vestiu
a camisa listrada e saiu por aí
em vez de tomar chá com torrada ele tomou parati...”
A exemplo de Ary Barroso, iniciou os anos quarenta fazendo um grandioso
samba-exaltação, “Brasil Pandeiro”:
“O
tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato...”
Enquanto a música brasileira ganhava prestígio no exterior, o inverso
acontecia aqui. O samba começava a perder espaço para ritmos estrangeiros.
Assis Valente não se adaptava aos novos modismos. Havia perdido seus
interpretes. Carmem Miranda e o Bando da Lua partiram para os Estados
Unidos. Não havia outros interpretes que se interessassem por seu estilo.
Somando-se a isso, as dívidas do compositor se multiplicavam. Seus últimos
versos pareciam premunissores: “Felicidade afogada morreu, a esperança
foi ao fundo e voltou, foi ao fundo e voltou, foi ao fundo e ficou.”
Assis Valente chegou ao fundo do poço. Foi e voltou, foi e voltou. Na
terceira tentativa, pôs fim à própria vida. Mas ficou na nossa memória
musical. Principalmente no natal. É dele “Boas festas”, a mais famosa
marchinha natalina escrita por um brasileiro. Tão alegre na melodia
e no ritmo quanto triste na letra:
“...
Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai Noel
vem assim felicidade eu pensei que fosse uma brincadeira de papel.
Já faz tempo que eu pedi mas o meu papai Noel não vem
Com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem...”
Júlio
Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG