O primeiro contato de Ary Barroso com a música foi sofrido. Desde os
dez anos de idade, era submetido por sua tia e tutora a horas de exercícios
ao piano, equilibrando um pires nas costas das mãos sob a ameaça de
uma vara de marmelo em caso de erro. Mal sabia o menino que esta atitude
pouco pedagógica da tia lhe daria condições de sobreviver mais tarde
no Rio de Janeiro tocando na noite. Já nesta época, pouco tempo sobrava
para dedicar-se à composição. Ary Barroso foi o que hoje chamamos de
artista multimídia: compositor, pianista, apresentador de programa de
calouros, locutor esportivo, político, entre outras atividades. Em todas
elas, deixou a marca de sua personalidade.
Como locutor, marcou pela parcialidade indisfarçável quando o seu time
de coração, o Flamengo, estava em campo. Parcialidade que refletia na
evidente diferença de intensidade no toque da gaita no momento do gol
de seu time ou do adversário. Atitudes extremas como simplesmente abandonar
o microfone seis minutos antes do término de uma partida para comemorar
a conquista do campeonato pelo seu time só fez crescer a sua popularidade.
Como apresentador de programa de calouros, marcou pelo defesa incondicional
à música brasileira e à valorização do autor da música que fazia questão
de citar antes de toda música apresentada em seu programa. Foi o primeiro
músico a obter êxito exigindo direitos autorais. Como vereador foi decisiva
a sua interferência para a construção do Maracanã.
O tempo escasso para a composição não foi impedimento para que Ary Barroso
construísse uma obra consistente e definitiva, bastando citar “Aquarela
do Brasil” que por si só já guarda o seu nome para sempre na história
da música popular brasileira.
“Brasil,
meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro
vou cantar-te nos meus versos...”
Aquarela era a maior representação do Brasil no exterior, ao lado da
cantora Carmem Miranda. A letra que a princípio foi vetada pelo DIP
por causa do verso “terra de samba e pandeiro” acabou servindo como
luva aos interesses do Governo de Getúlio Vargas: um samba exaltação
grandioso, na voz de Francisco Alves, cantor mais popular da época,
ressaltando as belezas e riquezas do Brasil. Nesta mesma linha, vieram
outras como “Sandalha de prata”:
“Isso
aqui ô ô, é um pouquinho de Brasil iá iá,
desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz...”
O prestígio
de Ary Barroso a partir de Aquarela do Brasil renderia ao compositor
o convite de Walt Disney para assumir nos Estados Unidos a direção musical
da Disney Product. Mas Ary, após um dia de reflexão deu a resposta negativa
ao convite, alegando que não poderia viver na América do Norte, pois
lá não existia o Flamengo.
Se o
samba-exaltação de Ary trazia uma visão otimista, bonita e grandiosa
do país, um outro poeta se apresentava quando o ritmo era o samba-canção.
Um autêntico representante do letrista estilo “dor-de-cotovelo” que
teria continuidade mais tarde em Lupicinio Rodrigues, Dolores Duran
e Antônio Maria:
“Risque
meu nome do teu caderno
pois não suporto o inferno
do nosso amor fracassado...”
Para
um ouvinte menos acostumado ao estilo, ao modo de cantar da época, pode
soar brega, exagerado, ultrapassado. Mas os versos de Ary são a expressão
poética do amor numa época em que amar sem ser amado era quase uma convenção:
“Sei
que falam de mim, sei que zombam de mim
Oh, Deus, como sou infeliz...”
O poesia
dos versos de Ary podem ser evidenciadas mais tarde em novas interpretações
como em “pra machucar meu coração” com João Gilberto no auge da bossa-nova:
“Tá
fazendo um ano e meio, amor, que o nosso lar desmoronou...”
Nos
anos cinqüenta, algumas mudanças afastaram Ary Barroso do centro das
atenções. Contrariava o compositor a invasão do bolero (estrangeiro)
contaminando o samba. Contrariava o comércio dominando cada vez mais
as rádios. Contrariava também o surgimento da bossa nova com a mistura
do jazz também influenciando o samba. Da geração bossa-nova, só considerava
Vinícius de Moraes, parceiro com quem escreveu suas últimas composições
bem sucedidas.
Júlio
Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG