Se
o Brasil, por muito tempo e ainda hoje ficou conhecido pelo seu futebol,
a beleza de suas mulheres e o carnaval, há nisso uma importante
contribuição do compositor Lamartine Babo.
Lamartine
tinha imensa facilidade em lidar com a palavra e, por isso era eclético,
passeando com a mesma habilidade por vários gêneros. Quem
conviveu com este compositor, certamente não escapou de seus
trocadilhos e piadas.
Nos
anos trinta, Lamartine Babo era considerado rei do carnaval, autor de
clássicos até hoje bem lembrados como "Linda morena",
"Grau dez" e da antológica "O teu cabelo não
nega" que talvez, escrita hoje, fosse censurada por racismo:
"O
teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor
mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero teu amor..."
No
futebol, deixou sua marca não só por sua paixão
declarada pelo América, mas pelos hinos que compôs para
os principais times cariocas. Conheci o belíssimo hino do Fluminense
em 1984 quando o time foi campeão brasileiro. Mais que pelo título,
ou pelo time, aquele hino em tom menor me seduziu e, desde então,
entre os times cariocas:
"Sou
tricolor de coração, sou de um clube tantas vezes campeão
cativa pela sua disciplina o Fluminense, me domina,
eu tenho amor ao tricolor..."
Se
o assunto é festa junina, Lamartine Babo tem sua marca em "Chegou
a hora da fogueira", uma das mais poéticas letras do gênero:
"Chegou
a hora da fogueira, é noite de São João
o céu fica todo iluminado, fica um céu todo estrelado
bordadinho de balão..."
Lamartine
também produziu clássicos inesquecíveis da MPB
como "Eu sonhei que tu estavas tão linda" com Francisco
Matoso:
"Olhavas
só para mim, vitórias de amor gozei,
mas foi tudo um sonho, acordei..."
Outra
parceria, com Ary Barroso, é muito interessante. A música
"No rancho fundo" já havia recebido letra de outro
parceiro e começava mais ou menos assim: "Na grota funda,
onde morava a Raimunda...". Não agradando dos versos originais,
Lamartine criou novos versos e ofereceu ao Ary. Constatando a qualidade
dos últimos, Ary Barroso não pensou duas vezes: Poderia
perder o amigo e antigo parceiro, mas não poderia perder aquela
letra:
"No
rancho fundo, bem pra lá do fim do mundo
onde a dor e a saudade contam coisas da cidade..."
História
ainda mais famosa é a do samba-canção "Serra
da boa esperança". Lamartine manteve correspondência
com uma fã apaixonada de Boa Esperança-MG até que
esta romperia o contato antes que houvesse um possível primeiro
encontro. Anos depois foi convidado por um dentista de Boa Esperança
para visitar a cidade e finalmente ser apresentado a sua fã.
Mal podia imaginar Lamartine que a suposta fã apaixonada era
o próprio dentista. Uma desilusão amorosa que Lamartine
traduziria em versos imortais:
"Levo
na minha cantiga a imagem da serra
sei que Jesus não castiga o poeta que erra
nos os poetas erramos porque rimamos também
os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem..."
A
exemplo de outros compositores de sua geração, Lamartine
já não gozava do mesmo prestígio no final dos anos
cinqüenta, início da Bossa-nova. Em uma de suas últimas
entrevistas, Lamartine perguntou ao repórter se a matéria
sairia naquele mesmo dia. Ele disse que não, a prioridade era
para a entrevista de Tom Jobim que acabava de chegar dos EUA. Era a
deixa para mais um de seus trocadilhos: "Ah! Quer dizer que agora
estou um tom abaixo?"
Júlio
Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG