Até
o século XX, a história da música mostra que
sempre existiram autores anônimos, tanto na música popular
como na música clássica. Mesmo não havendo o
interesse comercial em relação à música,
esta atitude de não assinar a composição não
deixa de ser um ato de desprendimento e de humildade do autor. Quem
deixaria hoje de assinar Greensleaves ou Romance? Quem não
gostaria de deter os direitos autorais de "Peixe vivo" ou "se esta
rua fosse minha"? Hoje, qualquer três notas ou duas rimas que
o sujeito junta, quer logo se informar de como registra a tal criação
em seu nome, com medo de ser assaltado na próxima esquina e
fatalmente deparar-se com ela, a "obra-prima", na boca do povo, no
topo das paradas de sucesso.
No
artigo da semana passada, vimos a polêmica em torno da auditoria
do samba "Pelo telefone". Sinhô, um dos envolvidos na confusão,
dizia: "samba é como passarinho, está no ar, é
de quem pegar." Não foi um caso isolado neste período,
nem privilégio do samba. Um clássico ainda mais popular
de nossa música teve sua autoria questionada. Trata-se da toada
"Luar do sertão", lançada em 1914.
Os
versos são incontestavelmente de Catulo da Paixão Cearense,
maior poeta da música nas duas primeiras décadas do
século XX. Quanto à melodia, Catulo sempre afirmou ser
o único autor, ignorando a participação de João
Pernambuco. Vale lembrar que Catulo, apesar de tocar muito bem violão,
sempre dependeu de bons parceiros para construir as melodias que ele,
com maestria, cobria de versos.
João
Pernambuco era um exímio violonista, apesar de semi-analfabeto,
tinha um domínio invejável do instrumento e recolheu
o tema da melodia do folclore nordestino. Apesar de não obter
o recolhimento judicial da autoria, mais que isso, João Pernambuco
teve o reconhecimento público e a defesa de Heitor Villa-Lobos
e Almirante.
O
fato é que, com o início da comercialização
da música, os autores anônimos foram desaparecendo. Todos
queriam assumir a paternidade de versos e melodias sem dono.
Numa
década em que o mercado não acompanhava ainda o grande
salto tecnológico causado pela possibilidade de gravação,
o choro se firmava como o principal gênero e o samba começava
a dar o ar da graça. Alguns clássicos como "Lua branca"
de Chiquinha Gonzaga, "Tico-Tico no fubá" de Zequinha de Abreu,
"Rosa" de Pixinguinha e "Odeon" de Ernesto Nazareth faziam sucesso
ainda sem letra. O letrista de maior prestigio da época ainda
era Catulo da Paixão Cesarense com seus versos simples e ingênuos
que tinha a capacidade de ficar. Luar do sertão, de 1914, é
até hoje uma de nossas músicas mais populares. A melodia
também simples, ajudou na eternização desta toada.
Catulo toca no íntimo do povo brasileiro ao dizer de forma
direta da saudade do sertanejo de sua terra e de sua dificuldade em
aceitar a frieza do mundo urbano, um mundo abalado pela primeira grande
guerra mundial.
"A
gente fria desta terra sem poesia
não se importa com esta lua, nem faz caso do luar
enquanto a onça, lá na verde capoeira
leva uma hora inteira vendo a lua a meditar..."
Esta
nostalgia é uma herança que carregamos. É interessante
perceber esta saudade até mesmo naqueles que já nasceram
na cidade grande, vendo neste sertão idealizado, uma terra
prometida, uma possibilidade de fuga, de exílio, longe até
mesmo dos conflitos existenciais.
"Não
há, oh gente, oh não, luar como este do sertão..."
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