Início
do século XX. Em meio à política café-com-leite,
o Brasil republicano continua recebendo imigrantes, aumentando ainda
mais a miscigenação. Os negros, recém libertos,
se ainda estão longe de ter voz e vez na sociedade, vão
conseguindo, ao menos, introduzir aos poucos elementos de sua cultura.
O candomblé e a umbanda passam a ser aceitos como parte da cultura
brasileira.
Chegam nesta época os primeiros gramofones,
uma grande evolução tecnológica para a música.
O primeiro disco brasileiro é gravado. Trata-se do Lundu "Isto
é bom", já citado no artigo anterior de Xisto Bahia,
cantado por Baiano. Para quem acha que as letras das músicas
atuais são maliciosas, o que dizer desta primeira gravação
em disco no Brasil?
"A saia da Carolina custou-me cinco mil réis
Levanta a saia mulata que eu dou cinco e dou mais dez
Isto é bom, isto é bom, isto é bom que dói
Os padres gostam de moça e os casados também
E eu como rapaz solteiro gosto mais do que ninguém..."
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Musicalmente,
destacavam-se Chiquinha Gonzaga, já citada anteriormente e Anacleto
de Medeiros, maestro da Banda do Corpo de Bombeiros e Ernesto Nazareth,
pianista e compositor semi-erudito que preferia denominar suas composições
como tango brasileiro a maxixe, por demais popular.
Quanto às letras, nosso foco principal, temas como a saudade
e o amor fracassado continuam na moda:
"Tu não
te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu...
Tinha um coqueiro do lado que, coitado, de saudade, já morreu..."
"Nesse mundo eu choro a dor de uma paixão sem fim
Ninguém conhece a razão porque choro no mundo assim..."
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Aparecem
também crônica dos acontecimentos e até mesmo crítica
bem humorada à política:
"A Europa
curvou-se ante o Brasil / e clamou parabém em meigo tom/
Brilhou lá no céu mais uma estrela / apareceu Santos
Dumont..."
(A conquista
do ar - Eduardo das Neves 1902)
"Ya ya, me
deixa subir esta ladeira / eu sou do bloco que pega na chaleira"
(No bico
da chaleira - Juca Storioni 1909)
Obs.:
Pegar no bico da chaleira era sinônimo de bajulação
e surgiu a partir do fato de políticos, ansiosos por agradar
o poderoso senador Pinheiro Machado, disputavam entre si para servir
o chimarrão para o senador, muitas vezes queimando os dedos,
puxando a chaleira pelo bico.
O Rio de Janeiro era o grande centro da música
popular. O que não significa que todos os compositores importantes
fossem cariocas. O maior letrista desta primeira década do século
XX seria um Maranhense com Ceará no sobrenome. Catulo da Paixão
Cearense, poeta nato, escreveria os principais versos da época.
O livro "Sertão em flor" de Catulo, pode ser encontrado
na internet em forma de e-book. Transcrevemos aqui um trecho da famosa
"Ontem ao luar", recentemente regravada por Marisa Monte:
"Ontem ao
luar / nós dois em plena solidão /
tu me perguntaste / o que era a dor de uma paixão /
nada respondi / calmo assim fiquei /
Mas fitando o azul / do azul do céu / a lua azul / eu te mostrei..."
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Destacamos
ainda outro letrista que infelizmente está bastante esquecido.
Eduardo das Neves, que escreveu grandes sucessos nesta primeira década
não é lembrado nem mesmo como o autor da primeira versão
em português para a valsa "Vieni sul maré" que
ele transformaria na conhecidíssima "Oh
Minas Gerais", sucesso em 1907 e definitivamente imortalizada
com o acréscimo de novas estrofes em 1942, consagrada como hino
não oficial do estado de Minas.
Júlio
Saldanha Teixeira
Regente
da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro
da Academia de Letras de Pará de Minas MG