Nascem
o choro, o maxixe e a primeira marchinha carnavalesca
Estamos na segunda metade do século XIX, transição
do Império para a República. Fim do Império, fim
da escravatura, fim do século. É criado o primeiro fonógrafo
que prenuncia a evolução tecnológica que estaria
por vir, tornando possível a gravação e imortalização
do som musical.
Época
dos ranchos carnavalescos, dos desordeiros "entrudos", da guarda
nacional, auge das bandas de música e fanfarras. No Recife, nascia
o frevo, que mais tarde seria conhecido como a dança das multidões.
Surgem no Rio de Janeiro os teatros de revista, mistura crítica,
irreverente e humorística de música, teatro e dança.
Outros
ritmos, além do Lundu e da Modinha passam a integrar o cancioneiro
popular. Ritmos populares na Europa como a polca são difundidos.
Surge o Maxixe, considerado o primeiro ritmo genuinamente brasileiro,
na verdade, uma maneira diferente, exageradamente requebrada de dançar
a polka (da Boêmia), a Habanera (cubana) e o tango (argentino).
Número obrigatório nos Teatros de Revista, seria, a exemplo
do lundu, alvo de preconceito e resistência. Vale lembrar que
a escravidão acabou, mas não o preconceito e muito menos
a disparidade social entre brancos e negros. O surgimento de ritmos
importantes nas baixas camadas da sociedade seria um fenômeno
constante em nossa música, com uma resistência inicial
e aceitação posterior acompanhada de algumas modificações.
Assim, disfarçado de tango brasileiro, o maxixe conquistaria
seu espaço e a simpatia de compositores respeitados e atravessaria
o Atlântico no início do século seguinte, chegando
à Europa.
Pouco
adaptado a letras, o maxixe teria vida curta, dando lugar, no século
seguinte a um de nossos ritmos mais importantes: o samba. Nas poucas
letras criadas para este ritmo, podemos perceber a mesma malícia
vinda do Lundu e repassada ao samba:
"No
maxixe requebrado
nada perde
o maganão!
Ou aperta
a pobre moça
Ou lhe arruma
um beliscão!"
O século XIX não terminaria sem a afirmação
de outro de nossos gêneros mais importantes: o Choro. Não
era propriamente um ritmo. Era uma maneira "chorosa" de indecisão
propositada e preguiçosa de cantar e tocar uma valsa, uma polca
ou um schottsh, por exemplo. Era comum nesta época a seresta
no fim de noite. Seria o preferido dos funcionários públicos,
comerciantes de origem negra, recém saídos do regime de
escravidão. Embora fosse essencialmente um gênero instrumental,
incompatível com o texto poético pelo virtuosismo das
notas, alguns choros ganharam versos dos melhores letristas da época.
O principal
divulgador do gênero, o mulato Joaquim Callado, era um virtuoso
flautista, que chegou a ser condecorado ainda no período imperial
por Dom Pedro II com a Ordem da Rosa. Sua polca de maior sucesso, "Flor
amorosa" ainda hoje é muito tocada por grupos de
seresta. No início do século XX ela ganharia letra de
Catulo da Paixão Cearense:
"Flor
amorosa, compassiva, sensitiva, vem
porque
é
uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa,
pois olha
a rosa tem prazer em ser beijada, é flor, é flor..."
Finalmente,
abrindo alas para o século que seria marcado pela revolução
sexual, Chiquinha Gonzaga, uma mulher à frente de seu tempo,
seria um dos grandes nomes desta fase que definitivamente inaugura a
música popular brasileira. Em 1899, iria compor "Oh abre
alas", primeira marchinha carnavalesca. A letra é extremamente
simples, direta, ingênua, mas já atravessou mais de uma
centena de carnavais e até hoje é uma das marchinhas mais
executadas:
"Oh abre
alas que eu quero passar
oh abre
alas que eu quero passar
eu sou da
lira não posso negar,
eu sou da
lira não posso negar..."

<Ouvir...>
Júlio
Saldanha Teixeira
Regente
da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro
da Academia de Letras de Pará de Minas MG