"Vida
de nego é difícil, é difícil como o quê..."
(Dorival Caymmi)
Chegam
os primeiros escravos africanos para o duro trabalho nas lavouras de
algodão, tabaco e cana-de-açúcar. Longe de trazer
simplesmente a força de sua mão-de-obra, o negro africano
traz também a sua música que, apesar de toda a subordinação,
não pôde ser totalmente reprimida. Uma influência
fortíssima é evidente em nossos ritmos mais populares.
O
ritmo africano influenciou não só a música popular
brasileira, mas de todo o mundo. Os ritmos mais importantes vieram da
África. Enquanto a harmonia musical, própria dos Europeus
se refere à razão e a melodia musical, habilidade dos
índios e dos orientais se refere ao coração, o
ritmo está diretamente ligado ao corpo, ao movimento, ao sexo,
isto, evidentemente, se reflete no texto, trazendo para o Brasil, ingredientes
fundamentais em nossa forma tão brasileira de cantar.
Não é difícil para
nós, imaginarmos o que acontecia nas senzalas após um
penoso dia de trabalho. Antes de ser uma preocupação de
preservar-se culturalmente, estes homens deviam buscar na música
uma forma de entretenimento, de alívio das tensões causadas
pelo estado de escravidão.
Dos cantos afros, conservamos a acentuação
forte, os termos sonoros e flexões de sintaxe e dicção
que influenciaram as melodias. Formas diferentes como o refrão
fixo com estrofe improvisada. Ou verso único seguido de refrão
curto. O tema amor, longe dos queixumes lusitanos, é tratado
com humor e extrema sensualidade, embalado por ritmos condizentes. Vem
daí parte do nosso jeito debochado e satírico de encarar
inclusive os temas mais sérios da nova realidade encontrada nesta
terra. Características que a nossa música popular jamais
perderia. Como neste Lundu contagiante de Geraldo Vianna e Pixinguinha,
gravado em 1950:
"Aquicô
no terreiro o peru adie
faz inveja pra gente que não tem mulhê
No Jacutá de preto velho
Há uma festa de Yaô
Oi, tem nega de Ogum
De Oxalá, de Iemanjá
Mutamba de Oxossi é caçador
Ora viva nana, nana borokô
Yô, yô, yô, yô, oh
No terreiro de preto velho, yayá
Vamo sarava
A quem, meu pai?
Xangô..."

<Ouvir...>
Júlio
Saldanha
Regente
da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG