Ao
contrário dos tradicionais livros de história, não
conseguiríamos dar início a este passeio cronológico
por um tema da cultura brasileira começando pelo momento do descobrimento,
data oficial do início da história do Brasil. É
inegável que já devia existir, muito antes, uma riquíssima
produção na poesia musical dos índios. Que palavras
eles entoavam em seus rituais e festejos religiosos? Qual a sonoridade
destas palavras no idioma nativo? Quais eram seus temas preferidos?
Em que momentos cantavam? Cantavam em coro? Homens e mulheres? Crianças?
Em uma única voz ou duetos? O
que sabemos disso, de concreto, é o que podemos observar das
poucas reservas indígenas que sobreviveram ao extermínio
e à aculturação imposta pela colonização.
Esta cultura não só foi massacrada, mas também
extirpada de nossa história. Será?
Cremos
que não. Acreditamos em uma memória genética e
em nosso sangue, conservamos a cultura indígena. Sabemos que
os temas cosmológicos eram comuns nos cantos indígenas
como nestes trechos dos cantos Tupinambás:
“Enopo
Pa’i Kuara ñe ‘e”
(escute a palavra do divino xamã do sol)
“Canindé jub, Canindé jub, eyra oaê”
(Canindé amarelo, Canindé amarelo, tal qual o mel)
Mário
de Andrade afirma que são de influência indígena,
certas formas poéticas usadas ainda hoje no nordeste. Um canto
com som anasalado, comum em quase todo país, também é
herança dos Guaranis. Melodias quase faladas, o ritmo discursivo,
livre das limitações do metro e do compasso...
Podemos observar
neste pequeno trecho citado acima uma característica marcante
na poesia indígena que é a repetição. A
forma destes cantos, geralmente se caracteriza pela existência
de versos seguidos de um refrão curto, geralmente de uma só
palavra. É o que podemos observar nesta canção
do folclore paulista:
"Você
gosta de mim, oh Maninha
eu também de você, oh Maninha
vou pedir aos seus pais, oh Maninha
para casar com você, oh Maninha."
Embora
com características indígenas na forma, já encontramos,
nesta música folclórica, uma forte influência portuguesa:
o tema amoroso. Infelizmente,
do dialeto original, apenas palavras isoladas, pudemos conservar. Embora
modesta, a presença do idioma indígena no nosso vocabulário
predominantemente português, sobrevive nos temas. A alma indígena
está presente sim em nossos textos, principalmente quando falamos
do divino associado à natureza. Amor e respeito à natureza
que seria uma constante na obra de nossos dois maiores compositores:
Heitor Villa-Lobos e Antônio Carlos Jobim.
"Uirapuru,
uirapuru, seresteiro cantador do meu sertão
uirapuru, uirapuru, ele canta as mágoas do meu coração."
<Ouvir...>
Caetano
Veloso tem uma composição que sempre que ouvimos, visualizamos
facilmente uma tribo indígena. A letra, o compasso, a melodia,
de onde tirou Caetano?
"Todo
dia o sol levanta e a gente canta o sol de todo dia
finda a tarde e a terra cora e a gente chora porque finda a tarde
quando a noite a lua mansa e a gente dança venerando a noite..."
<Ouvir...>
Até
a próxima semana com mais novidades.